Meu escritório só tem uma janela, mas eu sempre a mantenho fechada. Acabo me perdendo no tempo, e os dias parecem iguais.

Ser pai é um trabalho que fazemos todos os dias, mas nem sempre da maneira certa. Ontem eu fiz merda, errei a mão, exagerei.

Logo depois do almoço, um pouco antes de levar meus filhos para a escola, eles estavam brincando na sala. Minha filha mais velha, Maria Valentina, estava tentando fazer da caçula uma boneca, e ela claramente não estava gostando, tentando fugir da irmã mais velha, que tentava pegá-la no colo. Até aqui, tudo bem. Eu quase nunca me intrometo nas brincadeiras deles, e até gosto de ver o bicho pegando entre eles, pra saber como resolvem os próprios problemas.

Não vou mentir, talvez eu devesse ter interferido dessa vez, porque a gritaria e o caos já estavam instalados, e a Oli, apesar de dar um baile nos irmãos, não tinha mais tantos recursos para fugir da irmã e já estava chorando. Maria, por natureza, gosta de impor as regras nas brincadeiras, e continuou insistindo em fazer da irmã uma boneca, até que conseguiu pegá-la no colo de forma errada, fazendo com que ela caísse no chão, batendo a testa. Foi nesse momento que perdi a paciência.

Olivia gritando com um galo na testa, Maria tentando acudir. O que eu fiz? Piorei a situação. Comecei a gritar e a intimidar minha filha de forma totalmente desproporcional, com o dedo no rosto dela, repetindo: “Você está feliz agora? Está feliz em machucar a sua irmã? Você gostaria que eu fizesse isso com você? Ela não estava gostando da brincadeira, mas você fez isso até ela se machucar.” Olivia não parava de chorar, e Maria, assustada, se encolhia no canto da sala com medo, tamanho era o meu descontrole. Quanto mais eu gritava, mais medo dava pra ver nos olhos dela. A imagem daquele olhar assustado não sai da minha cabeça. Meus filhos quase nunca me veem agir assim; sou calmo e paciente, com as meninas ainda mais.

Maria nunca tinha me visto agir daquele jeito com ela, e, naquele microssegundo, eu não era o pai que ela conhecia. Era um homem tomado pela raiva, sem controle, intimidando uma menininha de oito anos, frágil e indefesa. Que merda. Cinco segundos depois eu já sabia que estava errado, assim que parei de gritar, já sabia da besteira que tinha feito.

O silêncio tomou conta da sala. Meus filhos, quietos, com medo. Eu, quieto, com remorso e vergonha.

O silêncio só acabou quando o alarme do celular tocou, avisando a hora de ir pra escola.

Caminhando até o carro, Maria não abriu a boca e tentou adiantar o passo pra não ficar ao meu lado. Eu já sabia do meu erro, fui até ela e disse: “Vamos fazer assim: eu te desculpo por derrubar a Olivia, e você me desculpa por eu ter gritado com você, ok?” Que merda. Eu não estava pedindo desculpa, estava impondo uma desculpa sem de fato assumir o meu erro. Que exemplo. Eu era um tirano arrependido impondo novas regras.

Eu só estava tentando aliviar o meu lado, e ela, que já não é mais uma bebê inocente, respondeu seca: “Tá bom.” Deixei as duas na escola, e na volta parecia que minha cabeça estava me flagelando: parabéns, idiota, excelente exemplo você deu pros seus filhos de como se trata as pessoas que amamos, excelente exemplo você deu pro seu filho de como se trata uma mulher. Parabéns, você é um idiota. Todos nós temos nossas lembranças, e eu não parava de lembrar de como eu me sentia quando meu pai fazia isso comigo e com as minhas irmãs. Que sentimento horrível.

Voltei pro escritório, comecei a trabalhar, e ainda com aquela sensação de merda me deparei com um livro: Carta ao Pai, de Franz Kafka. Comecei a ler, e não foi um soco no estômago. Foi uma facada.

O livro conta a relação do autor com o pai, e a cicatriz que aquele jovem carregou pro resto da vida depois de um momento de impaciência e explosão do pai. Uma noite, o pequeno Franz chorava pedindo água na hora de dormir. O pai, já irritado, pediu que ele parasse, mas o choro continuou. Então o pai pegou Franz e o colocou do lado de fora, de pijama. O choro parou imediatamente, mas isso teve um custo emocional pro menino. Kafka escreveu sobre isso em Carta ao Pai, dizendo que se tornou uma criança obediente, mas sentia que sofreu danos internos. O pai de Kafka era uma figura autoritária, que não compreendia a sensibilidade do filho, e o menino buscava desesperadamente sua aprovação e amor.

Kafka se lembrava do pai como um gigante assustador, que o punia de forma severa. Embora a atitude do pai tenha funcionado pra parar o choro, deixou marcas profundas. A essa altura, você já pode imaginar como eu estava me sentindo. Eu não queria ser um pai tirano e amedrontador como o do livro. Mas fui. E eu não poderia terminar o dia sem corrigir meu erro, sem fazer um pedido de desculpas digno e honesto.

Por volta das cinco da tarde, escrevi um cartão pra minha filha e mandei uma mensagem pra minha esposa, que não tinha visto nada daquilo acontecer:

“Será que é muito brega eu mandar flores agora na escola pra Valentina?”
“???”
“Qual flor a Maria gosta?”
“Fala comigo.”

Ela não me respondeu, e eu resolvi ser o pai brega mesmo. Comprei flores, chocolate e um ursinho, e escrevi no cartão:

“Para minha filha amada. Filha, papai errou com você hoje. Essas flores são um pedido de desculpas. Eu te amo muito, e como eu sempre te digo, você é minha professora, papai está aprendendo a ser pai ao mesmo tempo em que você cresce. Eu errei com você, e essa não é a maneira correta de um pai tratar a filha, nem de um homem tratar uma mulher. Nunca deixe nenhum homem maltratar você, inclusive eu. Eu prometo que vou melhorar. Você me perdoa? Eu te amo. Assinado: papai.”

Eu errei, assumo o erro. E se por acaso você errar também, faça o mesmo, pai nenhum erra tentando errar, erra tentando acertar. Nós só temos o hoje pra corrigir nossos erros. Não deixe o orgulho ou a insegurança te impedirem de amar mais e aprender com os próprios erros. Nós não temos ideia de quanto peso nossas ações vão ter no futuro dos nossos filhos.

Eu só estou contando essa história pra que talvez você reflita comigo sobre como a raiva pode nos transformar. Todos nós já passamos por momentos em que sentimos raiva justificável, fomos provocados ou maltratados, e nossa reclamação era legítima. Mas, muitas vezes, nossa resposta é um grande erro. Lamentamos a gritaria e as palavras duras, percebendo que agimos por impulso, de forma destrutiva. Agir movido pela raiva quase sempre resulta em erro. A raiva nos faz fazer coisas estúpidas, quebrar confianças e deslegitimar nossas próprias queixas. Como pais, precisamos nos controlar e refletir antes de agir. É normal sentir raiva, mas é fundamental olhar a situação com calma. Devemos nos esforçar pra tratar nossos filhos com amor e paciência, mesmo nos momentos difíceis, pra que cresçam se sentindo seguros e amados.

DEUS EXISTE.

INSIRA SEUS DADOS ABAIXO E JUNTE-SE AO BATALHÃO DE PAIS EXTRAORDINÁRIOS